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[fato_05]

março 5, 2011

Por Walter Hupsel 04.03.11 – 18h58

Rua sem saída

Na semana passada aconteceu um ato bárbaro em Porto Alegre, mas poderia ser em qualquer cidade brasileira.Um motorista, dentro do seu possante Golf preto, irritado com a lentidão do trânsito a sua frente,  simplesmente passou por cima de dezenas de ciclistas, fazendo um strike humano. São imagens chocantes da barbárie, pura e inconteste, que nos aterroriza exatamente porque nos mostra quem somos, campeões de violência e morte no trânsito.

A rua é a metáfora perfeita da vida em sociedade. Se nossa esfera privada pode ser a dita “casa”, a esfera pública é rua.  É ela que pulsa e dá dinamismo à sociedade, mas, no nosso caso, é nela também que morremos abruptamente.

A rua, no Brasil, não foi pensada para o pedestre. As calçadas são estreitas e acidentadas, quando não ocupadas por carros. Andar por elas, quando possível, é um exercício de paciência e de risco. A rua foi feita para primazia do carro, para que o motorista tenha caminho mais livre, em detrimento do pedestre, do usuário do transporte coletivo ou do ciclista. Não é difícil perceber isso quando olhamos os orçamentos municipais destinados para cada um deles. Gasta-se uma fortuna em obras viárias para os automóveis enquanto pouquíssimo para metrô, ônibus ou ciclovias.

Somos, juntamente com os Estados Unidos, uma sociedade de carros. Fizemos essa opção lá atrás, e continuamos a fazê-la repetidamente. São escolhas políticas, pelo individualismo nefasto que se constrói contra o público, contra a rua. E a nossa rua, sempre refeita para que permaneça a mesma, é aquela que um conservador de boa cepa diagnosticou no começo do século 20: é a imunidade da propriedade, seja em relação aos subordinados, seja em relação ao Estado. É quase a extensão natural do domínio da Casa Grande. É, assim,  o domínio da propriedade privada, e exclusiva, contra a esfera realmente pública.

A sociedade do automóvel é a sociedade do privado e do insulamento, que transforma o público em seus próprios domínios. Privatizamos a esfera pública, pois a mediamos através dos carros.

Escolhemos viver em condomínios fechados, em carros idem. Condomínios que nos dão a falsa sensação de isolamento de uma sociedade violenta. Mas é o próprio isolamento que a torna assim, numa lógica circular e viciosa. O carro é a manifestação extrema desse isolamento, e, por isso, também é o símbolo maior de status.

Quem não se lembra do comentarista José Carlos Prates reclamando, explicitamente, na maior rede de comunicação do Sul do país que  hoje “qualquer miserável tem um carro”?

Prates faz coro ao novo queridinho da direita tosca –  o Olavo de Carvalho de All Star, como denominou com perfeição Michel Blanco –, Luiz Felipe Pondé, que reclamou dos pobres terem transformado uma outrora ilha de iguais, o avião, em um churrasco na laje.

Grande paradoxo. Queremos o conforto, as benesses e os bens propagados pelo capitalismo como a última instância do Éden na terra, mas queremos que sejam bens exclusivos, que só alguns tenham acesso.

Logo depois do ato bárbaro do motorista de Porto Alegre, vozes das autoridades correram pra defendê-lo, ou ao menos para atenuar aquilo que pode ser definido como uma tentativa de homicídio qualificado.

O delgado criticou a vítima. Para esse douto senhor os ciclistas se expuseram ao risco ao não pedirem autorização ao poder público para fazerem a manifestação. E arrematou com uma brilhante frase: “Aqui não é a Líbia. Aqui tem toda a liberdade para fazer manifestação, desde que avisem as autoridades. Faz a tua manifestação, mas não impede o fluxo de automóveis. Se tu impedes, dá confusão, dá baderna, dá acidente. Fica o alerta”.

E a cereja do bolo fica por parte do prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, que, quase tentando inocentar o sociopata do Golf, afirmou, horas depois da tentativa de homicídio, que a reunião de tantas bicicletas seria ilegal. Só faltou fazer coro com Jânio Quadros e dizer que as mulheres são as culpadas pelos estupros sofridos, já que não se vestem decentemente.

Inconscientemente, as autoridades ali não defendiam a pessoa que estava atrás do volante. Defendiam nosso legado, nossa rua como extensão da casa, privatizada, cujo símbolo maior é mesmo o carro. Agiram, assim, como advogados de defesa de uma sociedade segmentada, excludente, violenta. Defenderam o nosso legado, a nossa barbárie.

Chamem o ladrão!

Disponível em: http://colunistas.yahoo.net/posts/9187.html Acessado em: 05/03/2011

One Comment leave one →
  1. participacaoroubens1sem2011 permalink*
    março 5, 2011 1:11 pm

    ótima reportagem, muito consistente e crítico. Quando o colunista fala da questão da rua que feita sem pensar no pedestre, ai que me vem a pergunta: qual a participação das pessoas nesses grandes projetos viários? nós somos chamados a aceitar uma decisão que ja foi tomada. Falando em democracia participativa até que ponto a nossa sociedade é demoocrático? qual a voz dos ciclistas na cidade que é de todos, está claro para nós então da transformação da rua em o território dos carros e dos que estão atrás do volante.

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