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[fato_16] Práticas de arquitetura para demandas populares

abril 28, 2011

Um dos primeiros atendimentos do grupo dos Arquitetos da Família foi feito por Janaína e pelo Hernán. Janaína estava fazendo Trabalho Final de Graduação e Hernán havia acabado de concluir o dele. Eles ingressaram ao grupo muito motivados, sedentos de novas experiências, preocupados com o seu futuro profissional e profundamente críticos quanto à prática arquitetônica convencional. A primeira consulta que realizaram surgiu em resposta a um anúncio de jornal: a casa do policial militar Marcelo, no bairro Santa Tereza, para a qual sua noiva Hilda, uma funcio nária pública, se mudaria depois do casamento, mas apenas se alguns problemas muito peculiares dessa moradia fossem resolvidos.

O bairro Santa Tereza não é famoso somente pelos seus bares e vida boêmia, mas também pelas chamadas Torres Gêmeas. Essa dupla de edifícios, cujo nome oficial é Residencial San Martin, começou a ser construída no início da década de 90 e nunca foi terminada. Resquícios de uma construtora falida, as Torres Gêmeas foram rapidamente ocupadas por famílias de baixíssima renda, configurando hoje uma verdadeira favela vertical. A entrada para as Torres fica em uma área também ocupada informalmente, dotada de pouca infra-estrutura e próxima das margens do Ribeirão Arrudas, chamada Vila Dias. A casa de Marcelo não faz parte dessa ocupação, mas está nos seus arredores. Da janela da casa, tem-se uma vista privilegiada das Torres Gêmeas.

FIGURA 1 – [Vista aérea da casa de Hilda e Marcelo e das Torres Gêmeas. Observa-se uma espécie de mancha na lateral da primeira torre.]

Fonte: arquivo pessoal da autora, adaptado de GOOGLE MAPS, 2009.

FIGURA 29 – Vista por sobre o muro de divisa.

Fonte: arquivo pessoal dos arquitetos Hernán Espinoza e Janaína Marx, 2009.

O motivo principal para que Marcelo procurasse a ajuda de arquitetos é o lixo jogado diariamente das Torres Gêmeas sobre a cobertura de sua casa: são quilos e quilos de tudo o que se possa imaginar – até mesmo pessoas… Os objetos que caem do alto de mais de 15 andares chegam com força suficiente para quebrar quase qualquer material, de modo que é impossível manter a cobertura limpa ou protegê-la de sol e chuva. Além disso, a frequência dos projéteis é tão grande que Marcelo teve receio de deixar os arquitetos subir até lá, com medo que fossem atingidos. Assim, a casa, originalmente coberta com telhado colonial, tem apenas uma laje pré-fabricada, nua já há algum tempo, com muitas infiltrações e mofo por toda parte.

FIGURA 3 – Laje do quarto do casal

Fonte: arquivo pessoal dos arquitetos Hernán Espinoza e Janaína Marx

Marcelo e Hilda não têm muitos recursos e não cogitaram procurar outra casa e viver de aluguel. Na conversa com os arquitetos, mencionaram que queriam alugar a porção da frente do lote para estacionamento. Com essa renda, pretendiam fazer uma reforma completa, mas antes precisavam consertar as infiltrações. Marcelo tinha esperanças de impermeabilizar a laje, porém quando informado do valor do serviço, logo desistiu. Era uma quantia muito superior ao que ele tinha imaginado. Para piorar a situação, Hilda é alérgica; para ela seria terrível se mudar para a casa sem haver uma solução para a cobertura, as infiltrações e o mofo.

Hernán e Janaína, confrontados com uma situação absolutamente estranha a qualquer solução técnica que tivessem aprendido no curso de arquitetura, começaram a falar sobre a necessidade de impermeabilização, a possibilidade de um telhado cerâmico, a importância da limpeza dos drenos e coisas semelhantes. Mas, na realidade, estavam diante de um impasse: havia ali um conflito social urbano que nenhuma arquitetura conseguiria resolver. Quando levaram a discussão ao grupo, o desolamento foi geral.

O grupo acabou criando uma espécie de dispositivo que, mais do que uma solução técnica, soava como um suspiro de consolação: uma grande rede de proteção sobre toda a casa, presa por pilaretes metálicos. Sob essa rede, seria instalado um telhado metálico, mais leve e barato do que um telhado cerâmico, mas que poderia resolver o problema do calor e das goteiras. Os arquitetos elaboraram um pequeno manual explicativo e enviaram ao casal por email, estimando o custo de R$2.000, que estaria dentro do orçamento possível. Mas especialmente Janaína não ficou satisfeita e compreendo bem o porquê. Havíamos criado um paliativo incapaz de resolver o problema real, muito maior do que a posição dos drenos ou a sujeira que entope as calhas. Criar esse artifício estaria contr ibuindo para manter a situação existente?

FIGURA 31 – Alternativa proposta pelo grupo dos Arquitetos da Família

Fonte: arquivo pessoal dos arquitetos Hernán Espinoza e Janaína Marx, 2009.

Observando por outro lado: e se essa solução tivesse sido proposta por um grupo de arquitetos estrangeiros? Aquilo que tachamos de paliativo poderia receber outro nome se estivesse numa revistas de arquitetura? Seria uma intervenção? Ou talvez uma intervenção paliativa? Particularmente prefiro acreditar que alternativas como essa poderiam chamar atenção para o problema e fazer com que as pessoas passassem a prestar mais atenção ao que acontece na cidade.

(continua em:

 http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/1843/RAAO84FN9C/1/pr_ticas_de_arquitetura_para_demandas_populares.pdf  Acessado em: 28/04/2011

One Comment leave one →
  1. participacaoroubens1sem2011 permalink*
    maio 30, 2011 4:58 pm

    Esse trabalho da Priscila trazido aqui mostra o direcionamento do nosso trablho, em resumo ela (Priscila) no seu trabalho baseado no método do Linvingston montaram uma espécie de “consultório” para atender as pessoas de acordo com a demanda e elas participavam das etapas do desenvolvimento do projeto.

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